Gente com os copos… na mão

A ‘Essência do Vinho Madeira 2012′ decorreu no último fim-de-semana, e as mais de duas mil e quinhentas pessoas que a visitaram comprovam o sucesso de uma feira, que é para repetir.

Uma questão civilizacional, é assim que o enólogo madeirense Francisco Albuquerque define o gosto pelo vinho. Pelo bom vinho, entenda-se. E vinho, bom, muito bom e mesmo muito muito bom, foi coisa que não faltou no fim-de-semana passado no Centro de Congressos do Casino da Madeira, onde decorreu a ‘Essência do Vinho Madeira 2012′.

Foi a primeira vez que o evento foi organizado com ‘O’ maiúsculo na Região, e a qualidade da feira e a adesão dos madeirenses superou de tal forma as expectativas de todos, que a próxima edição é já uma certeza.

Foram três dias, mais de mil vinhos em prova livre, e umas boas dezenas em provas comentadas. Perto de três mil visitantes que percorreram com interesse os cerca de 70 expositores, conversaram com produtores, tiraram dúvidas com enólogos. “Um sucesso, que comprova que existe massa crítica na ilha e que o Funchal é um mercado a ter em consideração no panorama dos vinhos”, dizia no final Nuno Pires, director da ‘EV-Essência do Vinho’ que, a par com o DIÁRIO, organizou o evento. Por isso, acrescentou, esta foi apenas a primeira edição de um evento que vai repetir-se no futuro.

E que evento. Além das provas livres de vinhos de mais de uma centena de produtores, realizaram-se provas temáticas dirigidas por ‘wine experts’, ‘workshops’ direccionados para profissionais da hotelaria e da restauração, harmonizações enogastronómicas e sessões de ‘show cooking’ com ‘chefs’ reputados e ‘estrelados’ pela ‘Michellin’. Sim, porque um bom prato pede sempre um bom vinho.

“Eu quando idealizo os pratos, provo sempre alguns vinhos de forma a que ambos se complementem”, admite Octávio Freitas, chefe-executivo dos hotéis ‘Four Views’, explicando que o objectivo é que os sabores não choquem. “Pelo contrário, a ideia é retirar o melhor de cada um.”

Pela feira passaram outros cinco ‘chefs’, como Ljubomir Stanisic, executivo dos restaurantes ’100 Maneiras’ e jurado do programa televisivo ‘Masterchef’. Carlos Magno, com cozinha no grupo ‘Charming Hotels’, o ‘chef’ Chef Chakall – que dispensa apresentações -, o ‘chef’ Vitor Matos da ‘Casa da Calçada’ e Benoît Sinthon do madeirense ‘Il Galo d’Oro’.

“É uma excelente iniciativa, e uma oportunidade para aproximar a cozinha das pessoas”, disse Sinthon, o responsável pelo restaurante do hotel ‘Cliff Bay’, garantindo que o (bom) vinho tem sempre lugar à mesa. Foi isso que aconteceu no ‘Essência’, em que a alta cozinha andou de mãos dadas com o vinho. Após os pratos serem preparados, o público pôde degustá-los acompanhado por um vinho escolhido à medida.

E foram muitos os que não quiserem perder a oportunidade ver ‘chefs’ de classe mundial a trabalhar, passando pela cozinha montada pela ‘FX Hotelaria’, onde as cadeiras foram poucas para tanto interesse. De restos, todos os eventos programados contaram com boa afluência, mostrando o interesse dos madeirenses neste género de iniciativa.

“A Madeira ganhou um evento de escala e que em muito dignifica a ilha e em particular o Funchal”, dizia domingo passado o director comercial do DIÁRIO, Roberto Passos, sublinhando que estão reunidas todas as condições para que o certame se afirme no calendário anual português de iniciativas relacionadas com o vinho e a enogastronomia.

Não eram necessárias estas palavras, para atestar o sucesso da feira, bastava olhar para os corredores apinhados de entusiastas. Nem falar com especialistas como Alves de Sousa, uma lenda viva no panorama da enologia nacional. Mas nós falamos. “A Madeira já merecia um evento deste nível e com este cuidado organizativo”, referiu o enólogo, elogiando também o conhecimento dos madeirenses. “É um consumidor que gosta de bom vinho, é esclarecido mas, como todos, precisa de uma feira destas para contactar com vinhos diferentes”, explicou, dizendo que com tanta oferta o público deve sempre escolher numa óptica de qualidade/preço.

Também não era necessário ouvir João Graça, da ‘Sogrape’ dizer que a organização estava “impecável” e que os madeirenses eram “apaixonados e conhecedores” de vinho, bastava estar atento ao cumprimento dos horários, à falta de tempos ‘mortos’. Mas nós ouvimos, como ouvimos também as conversas soltas e interessadas, que o público, homens e mulheres porque o vinho não tem sexo, foi fazendo aqui e ali, nas mesas dos vários produtores. “Não é sempre que temos esta oportunidade, e não falo só das provas, mas também do contacto com os produtores e enólogos”, disse Carlos Fernandes, admitindo, perante os sorrisos de um grupo de amigos, que esteve dois dias na feira. “Um era pouco”, justificou.

Alexandra Mendonça, presidente da Associação dos Portos, também confessou entusiasmo pelo evento. “Estou cá a título de pessoal, porque gosto de vinho”, disse ao DIÁRIO, acrescentando que em termos de promoção turística, feiras deste género são sempre importantes.

Homens e mulheres. Mais velhos, e mais novos. “O vinho é universal, e não é machista”, garante Francisco Albuquerque, que olha para a ‘Essência do Vinho Madeira’ como um sinal claro de que existe um “crescimento muito grande” no interesse dos madeirenses pelo vinho.

“Aqui é local ideal para esse interesse crescer, evoluir, porque falar com produtores e enólogos ao mesmo tempo que se prova o vinho, é muito importante em termos de formação”, explica Albuquerque, elogiando o facto do sentimento de machismo que existia na Madeira em relação ao vinho, estar a desaparecer. “É um sinal civilizacional porque, como eu costume dizer, os animais não bebem vinho, só nós é que o apreciamos”.

Portugueses deviam olhar mais para o ‘Vinho Madeira’
O consumidor português precisa conhecer melhor o ‘Vinho Madeira’. A convicção de Rui Falcão, enólogo e crítico de vinhos, surge num contexto (infelizmente) muito usual em Portugal, onde, os bons produtos nacionais são muitas vezes mais conhecidos lá fora, do que cá dentro.

“O ‘Vinho Madeira’ é muito valorizado no estrangeiro, mas ainda pouco conhecido dos portugueses, o que é pena dada a qualidade que tem”, disse Rui Falcão, que esteve presente no passado fim-de-semana na Região, para participar no ‘Essência do Vinho Madeira’. Um evento que considerou “extraordinário”, para a promoção do ‘Vinho Madeira’ e do vinho nacional de uma “forma genérica”.

A harmonia como decorreu, o espaço escolhido, o cumprimento dos horários e as várias actividades desenvolvidas. Tudo mereceu elogios do enólogo, que acredita que a feira tem tudo para se afirmar no panorama nacional do sector.

Mais importante, ressalvou, é a oportunidade que oferece aos madeirenses de aprenderem mais sobre vinho. “Confesso que estou algo surpreendido, porque encontrei aqui um público já conhecedor mas com muita vontade de conhecer ainda mais”, explicou Rui Falcão, exemplificando com os números de entrada na feira na participação nas várias provas temáticas.

Fonte: dnoticias.pt