Uma formação saudável

O projecto ‘Tradições Saudáveis’ surgiu como forma de alertar os jovens para uma alimentação adequada e também para fazer despertar para a importância das tradições. Financiado por fundos europeus, Javier Santos, coordenador do projecto, sonha ir mais além com esta iniciativa.

O projecto ‘Tradições Saudáveis’ surgiu em 2011, fruto de um desejo pessoal de Javier Santos, o coordenador. Depois de ter trabalhado numa Organização Não Governamental (ONG) por vários países da Europa, onde teve oportunidade de conhecer novas culturas e tradições gastronómicas, e dado o destaque que a gastronomia tem ganho nos últimos tempos, principalmente na televisão, decidiu apostar nesta ideia, de sensibilizar os jovens para uma alimentação mais saudável e para um novo olhar sobre as tradições, “não como algo que está fora de moda, mas que deve ser mantido e inovado”.

A partir daí, o projecto surgiu, englobando também uma vertente relacionada com o consumo excessivo do álcool. Esta iniciativa não se assume como um curso, mas como uma formação para que os participantes ganhem competências, não na área da culinária, mas em termos de enriquecimento pessoal. “É mais dirigido à parte cívica, social e também pessoal, em termos de saúde, englobando as tradições”, explicou.

O projecto é financiado pelo programa europeu Juventude em Acção e a associação promotora é o Club Pés Livres. Este projecto foi dado a conhecer em associações, escolas e ainda há vagas para a parte referente ao consumo de álcool (www.tradicoes-saudaveis.pt). Contudo, as inscrições, gratuitas, dirigem-se a jovens entre os 16 e os 30 anos, por questões de programa e de financiamento do projecto.

Neste momento, e a participar nas actividades, estão cerca de 40 jovens, entre os quais muitos estudantes, trabalhadores e até desempregados. “São pessoas que têm interesse por esta área, pela alimentação”, disse. “No formulário de inscrição, uma das perguntas era o porquê de se inscreverem nesta formação e muitas disseram que tinham interesse em mudar a alimentação em casa”, apontou.

Este projecto está no terreno pela primeira vez e é pioneiro na Região, uma vez que mistura tradições, com diversidade cultural, gastronomia e alimentação saudável. A adesão foi a esperada ou ainda maior. “Tivemos até inscrições do continente, porque pensavam que também ia decorrer por lá”, disse, atribuindo este sucesso ao facto de “estar na moda” a gastronomia e as tradições.

Projecto para continuar O ‘Tradições Saudáveis’ começou a ser preparado em Maio e as actividades em Outubro. A formação decorrerá até Março de 2013, altura em que haverá um workshop final que vai ser aberto ao público em geral, no Funchal, e que contará com a presença do chef executivo dos hotéis Four Views, Octávio Freitas, e do dietista Ruben Silva, que falará sobre a preparação dos alimentos. Nssa iniciativa, também vai haver uma sessão de cocktails saudáveis, para complementar a parte da formação referente ao consumo excessivo de álcool.

Numa primeira fase, a formação foi dada na Pousada da Juventude, no Funchal, onde discutiram o que é diversidade cultural, cultura e tradições, sempre ligando estas questões à gastronomia. Depois, seguiram para o Hotel Four Views Baía, onde os jovens participam em várias actividades para aprender a importância do produto da terra para o prato, da agricultura biológica e o uso de plantas aromáticas. Nesta fase tiveram a possibilidade de conhecer a horta que o chef Octávio Freitas dispõe no Hotel Four Views Baía. Nesta parte, também falam sobre a gastronomia regional tradicional, as influências da dieta mediterrânica e o uso de produtos regionais e biológicos. Os jovens também vão contar com o contributo de um dietista que os vai orientar e ajudar na elaboração do seu próprio plano de alimentação, sem cometer ‘pecados’.

Depois da parte relacionada com a alimentação, a formação vira-se para o combate ao consumo excessivo de álcool. “É como se fosse uma segunda fase do projecto”, explicou Javier Santos, justificando a inclusão desta vertente com os “números impressionantes” que dão conta de um consumo cada vez maior de bebidas alcoólicas por parte dos mais novos. “Muitas vezes temos a ideia de que o consumo está associado às tradições, porque temos os arraiais, mas não está ligado a nada disso e sim aos jovens, que devem saber quais os seus limites”, frisou, sublinhando que vão alertar para o consumo moderado. Nesta fase vão ter convidados e posteriormente os jovens participantes vão elaborar uma campanha para o combate ao consumo excessivo de álcool nas redes sociais.

Quanto à continuidade do projecto, tudo depende dos apoios europeus. “Nós gostávamos de continuar, mas o projecto foi todo financiado pelo Juventude em Acção”, recordou, apontando que, a partir daí, tudo depende do que surgir e que há a ideia de continuar o projecto noutros níveis.

Para o coordenador do ‘Tradições Saudáveis’, a principal mais-valia do projecto é a oportunidade de “ver e mudar o estilo da alimentação”. Tendo em conta a actual situação de crise económica, esta é também uma oportunidade de aprender algo também ao nível da sustentabilidade nesta área.

Para este projecto, contam com uma equipa de jovens formadores, alguns deles que estavam desempregados. Para Javier Santos, este projecto foi também uma oportunidade para motivar quem não estava no activo.

“Com a crise é mais fácil ter uma alimentação saudável”
“Cada vez mais é importante sensibilizar os jovens para uma alimentação saudável, já que cada vez mais vemos jovens com problemas de saúde, causados por uma má alimentação, derivado ao stress e à falta de tempo”, referiu à MAIS o chef executivo dos hotéis Four Views, Octávio Freitas, formador neste projecto. Na parte em que esteve envolvido, fez questão de focar a importância das tradições para uma alimentação saudável. “A importância dos produtos frescos, como costumo dizer ‘da terra para o prato’, é importante, não só pelas vantagens da frescura dos produtos, mas também pela valorização dos produtos da terra e da Região”, frisou, apontando que, no dia-a-dia, as pessoas consomem “produtos de execução rápida, congelados e afins” e esquecem que existem produtos melhores com qualidade e quase ao mesmo preço ou mesmo mais baratos.

Devido à conjuntura actual, Octávio Freitas defende que a importância das hortas urbanas ou a compra no produtor, ou nos mercados tradicionais. “Eu penso que as pessoas às vezes gastam imenso dinheiro com produtos congelados quando conseguem obter os mesmos frescos e com mais qualidade”, salientou, sublinhando que a execução dos pratos por vezes é feita de uma forma menos sustentável e há um desperdício grande. “Eu acho que com a crise é mais fácil ter uma alimentação saudável”, frisou.

O chef acredita também que, nos últimos anos, os madeirenses têm valorizado e aproveitado melhor os recursos que têm. “Verifico que existem muitas pessoas a voltar aos seus terrenos e a reactivar as suas plantações”, constatou, enaltecendo o trabalho das entidades na promoção destes produtos. Porém, defende que “a qualidade dos produtos regionais têm que ir além fronteiras”.

Fonte: dnoticias.pt